ANDALUCIA BIKE RACE - Córdoba Jaén

Está neste momento a decorrer o ANDALUCIA BIKE RACE.

Em 2012 o Clube Banif esteve presente, relembramos aqui a experiência.

ANDALUCIA BIKE RACE - Córdoba Jaén - 26 Fev a 02 Mar 2012

RESCALDO POR JOÃO FERNANDES

O Team Clube Banif (João “Jota” Fernandes e Manuel Bispo) participou na 2ª Edição da Andalucía Bike Race que decorreu de 25 de Fevereiro a 2 de Março em Espanha. A prova composta por prólogo e 5 empenos (etapas), pertence ao calendário da UCI, considerada por muitos como uma das mais duras do género e pontuável para o apuramento dos Jogos Olímpicos de Londres 2012.

Seria assim que começaria esta crónica, caso se tratasse de uma equipa de BTT à séria, porém esta é uma história diferente, é a história de 2 BTTistas que aproveitaram a organização de uma prova desta dimensão para conhecer novos trilhos.

A ideia surgiu quase que por acaso, estava o Bispo a descrever mais uma das etapas da VPBTT (Volta a Portugal em BTT) e termina a dizer: depois de ter percorrido Portugal de Norte a Sul, está na altura de conhecer outros montes, “atacar” nuestros hermanos. Ao que prontamente respondi: “então vamos … é uma questão de arranjar uns tracks gps e começarmos a pensar na logística”.

De repente, lembro-me de que tinha visto que tinham aberto as inscrições para o Andalucía Bike Race, o que podíamos querer mais? Ficávamos com a logística tratada, o percurso marcado, os abastecimentos, no fundo ficávamos com tudo organizado e programado de um momento para o outro. Inscrevemo-nos.

Acho que só depois de ter efectuado a inscrição (Janeiro) me apercebi do que tinha feito, mas já estava, agora tinha pensar como as equipas a sério.

PATROCINIOS:

O nosso objectivo passa longe da competição, pelo que não haverá grande interesse em patrocinar uma equipa que estabelece como objectivo de participação, divertir-se e chegar ao fim. Pelo que o assunto, patrocinadores, ficou rapidamente arrumado.

TREINOS:

O Bispo pedala todos os fins de semana, está a fazer a VPBTT, fez a Algarviana, ou seja, tem mais pedalada que eu e experiência em pedalar vários dias seguidos.

Eu sou um BTTista de puro lazer, pedalo quando calha, vou fazendo umas Maratonas pelo nosso País e para ajudar tenho o ligamento posterior do joelho esquerdo por um fio. Rapidamente comecei a elaborar um plano de treino cujo objectivo era aproximar-me do nível do Bispo.

Tenho o dia bastante preenchido e estou sempre a dizer que, não treino mais porque não tenho tempo, mas quem quer arranja um tempo e quem não quer arranja uma desculpa.

GINASIO: A minha hora de almoço passou a ser no ginásio, trabalhei resistência muscular, potência e força. Trabalhei o CORE e finalizava com alongamentos (muito importante na prevenção de lesões)  => 3Xsemana

ROLOS: E não é que os rolos são um excelente parceiro de treino para quem chega tarde a casa.  =>  2 X semana

TREINO DE ESTRADA: Descobri a estrada há muito pouco tempo, mas, não só é viciante, como me permitiu trabalhar a minha cadência e melhorar a minha endurance. Aproveitei para participar num passeio dos Randonneurs Portugal (Tejo-Sorraia-Tejo 200) =>  1Xsemana

TREINO BTT: Dividido entre Sintra e Monsanto e sabendo o que me esperava em Andalucía, dei ênfase às subidas  => 1Xsemana

Pese embora o facto de não ser certamente o suficiente, consegui durante os 2 meses de treinos, passar de treinar 1 X semana para 7 X semana, perdi 10 kg, 6% M.G. e restava-me rezar para que fosse o suficiente para terminar os 6 dias em terras Andaluzas.


ALIMENTAÇÃO:

A alimentação é fundamental, mas não fiz alterações bruscas, pois não podia correr o risco de o corpo se ressentir e prejudicar os treinos. Limitei-me a fortalecer o pequeno almoço, melhorar o almoço com base em Hidratos e tentar não estragar tudo ao jantar (rico em Proteínas)

SUPLEMENTAÇÃO:

É inevitável, recorrermos a suplementação e após consultar quem de direito, fui inserindo a suplementação no meu dia-a-dia conforme ia ouvindo o meu corpo a queixar-se.

Batidos de Proteína, Bebidas isotónicas, vitaminas e bebidas de recuperação fizeram parte do meu dia-a-dia, tanto durante os 2 meses de treinos, como durante os 6 dias de prova.

E por fim começa a aventura

 

DIA 0 – Carcavelos/Sintra –> Córdoba

Acordamos cedo e como que se de duas crianças, para o primeiro dia de escola, se tratasse, a ansiedade predominava. Os cerca de 600 km de estrada foram devorados com um único assunto, bikes. Ao chegarmos a Córdoba dirigimo-nos para o Hotel Ayre para fazermos o registo na prova e foi aí que tivemos noção do que tínhamos feito. No fundo, foi como que reunir 10 amigos e ir fazer a liga dos campeões. Assim que entramos no jardim do hotel, todo ele ocupado com a logística destinada à prova, por todo o lado circulavam estrelas do BTT Internacional. Presentes estavam, os melhores de 22 Países, e nós. Enquanto as equipas tratavam das últimas afinações das máquinas de guerra, fomos a procura do nosso hotel.

  

DIA 1 – PRÓLOGO – 34 km / 860 mts acumulado

Quando o despertador tocou, começou o que passou a ser o nosso ritual: pequeno almoço; equipar e pedalar até á zona de partida. Na partida encontramos os amigos Portugueses e não foram necessárias palavras para demonstrar a alegria e o entusiasmo de estar a viver aquilo. Dá-se o tiro de partida e o comboio de bikes arranca com uma visita guiada pela cidade de Córdoba, quando termina o alcatrão e começa a terra e a pedra, o comboio transforma-se em TGV e dispara a grande velocidade, começando o pelotão a separar-se. Eu que por momentos devo de ter imaginado estar numa prova de dirt, fiz um mortal no primeiro drop que apareceu, com direito a aterragem de costas, serviu para acalmar e manter os olhos bem abertos. Este prólogo foi como que um aperitivo para o banquete que iria ser servido nos restantes 5 dias.

  

DIA 2 – EMPENO 1 – 78 Km / 1965 mts acumulado – Córdoba

A etapa iniciava-se a subir em asfalto até entrarmos no “El Réventon” um trilho literalmente em calhau que nos levava ao topo da Serra, não sem antes fazermos um singletrack a serpentear de tal forma que chegávamos a ficar tontos. Pedalada a pedalada percorremos a Floresta Encantada, Serrania del Sol, Artafi, acompanhamos o rio Guadiamellato. Após atingirmos “Siete Fincas” fomos presenteados com uns single tracks que rapidamente fizeram esquecer as duras e técnicas subidas que tínhamos deixado para trás. Quando chegamos a “Las Jaras” contornamos um campo de golf e depois tivemos a oportunidade de nos vingarmos do “El Réventon”, desta feita a descer que nem uns loucos inconscientes até à meta.

CURIOSIDADES

– O que fazem os atletas após cortar a meta?

Os mecânicos vão lavar, lubrificar e rever a mecânica para que a bike esteja prontíssima para a tareia do dia seguinte. Os seus pilotos tomam um batido de recuperação, banho, massagem enquanto comem uma barra energética, almoço e descanso.

- O que fazíamos nós após cortar a meta?

Lavávamos a bicicleta à “mangueirada” e óleo na corrente, pedalávamos até ao hotel, batido de recuperação, banho, "una canha", passar no supermercado para comprar mantimentos para umas sandes, mais 2 canhas enquanto fazíamos turismo pela cidade e após jantar, finalmente descanso.

 

DIA 3 – EMPENO 2 – 76 Km / 1946 mts acumulado  - Córdoba

A partida foi no mesmo local, porém já não fomos em direcção, ao que se tornou a minha inimiga de estimação, a subida “El Réventon”. Hoje tivemos os primeiros Kms bastante rolantes e estávamos agarrados ao pelotão até encontrarmos uma parede que nos colocou no nosso lugar. Depois já sem a “pressão” do pelotão foi tempo de desfrutar das paisagens, estava um dia quente, e estávamos a fazer o que mais gostávamos, pedalar por trilhos novos e verdadeiramente inesquecíveis. Para garantir que o empeno seria certo, a marcação do percurso encaminhou-nos para uma antiga linha de comboio e durante alguns minutos sentimo-nos autênticos comboios durante um tremor de terra. Para que os neurónios voltassem ao lugar fomos brindados com um singletrack a descer no meio de uma vegetação, a fazer lembrar um trilho da Serra de Sintra.

Está na altura de falar de uma das coisas que mais me fascinou e que marcou, a qual aplaudo de pé, o carinho manifestado pelo imenso público presente em todo o circuito foi motivador e inspirador. Havia público nos sítios mais inimagináveis. Foi impressionante, faziam-nos sentir que íamos em primeiros, a lutar pela vitória, a forma como gritavam “animo animo” davam-nos força e um poder especial. Às largas centenas de público por que passei o meu muito obrigado, foram realmente especiais. Parabéns pela forma como tal como nós viveram esta experiência. Sensivelmente a meio do percurso e no meio do nada, 5 crianças acompanhadas dos avós montaram um “abastecimento familiar” com água, cerveja e batatas fritas, como se tratava de uma prova, ninguém parava, porém 2 tugas (nós) fizeram a alegria daquelas crianças ao parar e beber uma cerveja com os avós, tiraram-nos fotografias e abraçaram-nos como se de dois “Hermidas” se trata-se. E conheciam Sintra.

Os últimos Kms coincidiram com os do dia anterior mas em sentido inverso e sinceramente o facto de saber que ia descer o que tinha subido no dia anterior e terminar com a super descida “El Réventon” deu-nos um “ânimo” suplementar.

Após cortar a meta, estava a molhar a bicicleta para tirar o pó e um Comissário da UCI abordou-me, no primeiro instante julguei que ia ser premiado com um teste doping, porém achei estranho, pois tínhamos terminado nos últimos lugares e seria mais provável acusarmos num teste de balão que num de doping. Mas sorridentemente informou que não poderíamos voltar a usar o nosso equipamento de Jersey manga cava, por não ser permitido em provas UCI, ou seriamos penalizados. Respondi que desconhecíamos a regra e que a iríamos cumprir pois não queríamos ser penalizados, já que estávamos em último. Rimo-nos e desejou-nos força e sorte.

Esta situação trouxe-nos mais um ritual de final de etapa, lavar o equipamento para o dia seguinte pois só tínhamos um Jersey e um calção.

  

DIA 4 – EMPENO 3 – 70 Km / 2082 mts acumulado – Priego de Córdoba

O terceiro empeno ia ter lugar em Priego de Córdoba, o que nos obrigava a acordar mais cedo, fazer o check-out no hotel e fazermos os cerca de 100 Kms que separavam estas cidades. A partida era no centro histórico e após percorrermos a cidade, dirigimo-nos para um estradão em direcção à montanha. Hoje era o dia de fazer uma longa subida, que tinha visto nos vídeos da 1ª edição e que me tinha deixado assustado, porém hoje era o dia em que me sentia melhor, mais forte e mais confiante. O Bispo passou a manhã a dizer: Calma, poupa-te a ti e à bike que ainda faltam mais 2 dias. Quando chegamos ao topo, começou a nossa sessão fotográfica, vacas, cabras, ovelhas, cavalos, e aquela vista, tudo servia para fazer uns flashes. A sessão só terminou quando chegou o Jeep da organização e nos lembrou que estávamos numa prova. Iniciamos a descida, single tracks espectaculares mas algo traiçoeiros,  ramos e pedras pontiagudas apareciam ao virar de todas as curvas, alguns drops depois chegamos a um desfiladeiro que depois de o atravessar nos conduziu a uma descida que tinha tanto de comprida como de inclinada, curvas de 180º em pedra solta fizeram com que mantivesse os olhos longe do horizonte e fixos no chão. No final da descida havia de tudo, bombeiros, mecânicos, abastecimento e o cheiro a férodo reinava.

Depois, e para arrefecer os travões, uns Kms a subir em alcatrão até ao topo da montanha onde entravamos novamente em single tracks que nos guiariam até a linha de meta, não sem antes fazermos mais uma descida vertiginosa e terminar com uma subida desgastante. Antes de terminar e a apenas 500 mts do final, consegui fazer o mais difícil e perder-me, segui as setas do inicio e já me estava a lançar para a 2ª volta quando oiço o Bispo a gritar e me apercebi que um de nós estava perdido e não era ele, pois já estava na meta. Mas deixo aqui a ressalva de que a marcação de toda a prova me impressionou de tão boa que estava.

Depois de terminar arrancamos para o local onde as duas ultimas etapas iam ter lugar, a bela cidade de Jaén, a partir daqui as bikes deixaram de ter direito a banho e teriam que se satisfazer com o fiozinho de óleo matinal.

 

DIA 5 – EMPENO 4 - 86 Km / 2741 mts acumulado - Jaén

Durante toda a prova os extensos olivais predominaram, mas Jaén é demais, para onde se quer que se olhe e até que a vista o permita há olivais, segundo nos disseram, a colheita da zona vai maioritariamente para Itália. O início da etapa era bastante rolante mas comecei a reparar que me estava a afastar rapidamente do Bispo, após alguns Kms passa por nós (em sentido contrário, obviamente) Luís Leão Pinto e Tiago Ferreira, iam em 2º e eu apostava que iriam ganhar, o que teria acontecido?! Descobrimos mais tarde que uma lesão no Tiago tinha afastado os meus candidatos à vitória. Quando começamos a subir na companhia de Marta e Mercedes, duas companheiras de Córdoba e com bastante pedalada, fui-me apercebendo que o Bispo ia com bastante dificuldade até que parou de vez. Explicado estava o porquê da minha facilidade em me afastar dele, o travão traseiro estava a prender a roda e a manete não era mais que um adereço, pois não funcionava. Ainda tentamos solucionar a avaria mas não conseguimos pelo que foi obrigado a desistir, aventurar-se a descer aqueles trilhos sem travão era completamente insano. Segui sozinho, tinha ficado sem a minha “pareja” sentia-me bastante desolado e nem queria imaginar como se sentiria o Bispo. As etapas tinham sido bastante duras para as Bikes. Pedalei um pouco com a Marta e a Mercedes e depois fui apanhar aqueles que passaram a ser os meus companheiros e uns grandes heróis, o Team CICLOS TRUJILLO, composto por Toni Montagut e António Trujillo, 2 antigos ciclistas (com quase 70 anos) que ainda dão cartas na estrada e que se tinham lançado para esta aventura em BTT. Os últimos Kms dei o que tinha pois para mim este era o dia final, uma vez que ia propor ao Bispo conhecer Jaén na minha Bike na 5ª etapa, Team Spirit.

 

DIA 6 – EMPENO 5 – 60 Km / 2151 mts acumulado - Jaén

O Bispo não quis trair a bike dele e “obrigou-me” a ganhar mais um empeno, a distância era curta, 60 Km, mas mais de 2000mts de acumulado positivo ditava o veredito do 5º empeno. Subidas duras e descidas de cortar a respiração. O facto de estar sem o meu companheiro de equipa, os 4 empenos que já transportava no corpo e as condições meteorológicas  quase ditaram a sentença e me convenciam a desistir. Felizmente os companheiros do Ciclos Trujillo apanharam-me e com eles algum animo se apoderou de mim. Após começar o dia a pedalar com sol, apanhar no topo da montanha os trilhos com neve e gelo, foi a chuva fria que quase me derrubou na descida até à meta. Quando entrei na cidade em direcção à meta localizada na Catedral de Jaén as lágrimas caíram-me pelo rosto e ainda hoje não sei se por causa do sofrimento, se pela emoção de estar a terminar ou pela admiração de ter chegado ao fim de tão dura prova. Sinceramente repetia tudo outra vez e se eu consegui qualquer pessoa consegue, essa é a moral desta história.

 

Em termos gerais o resultado foi excelente, apesar dos contratempos, próprios da modalidade. A experiência foi incrível, tivemos oportunidade de aprender muita coisa, ganhar experiência, conviver com gente excepcional tanto os Rider's, como os Andaluzes que nunca se cansaram de nos incentivar.

Partilhamos os trilhos com os melhores do Mundo.

Os trilhos que percorremos foram duros mas inesquecíveis.

Regressamos a Portugal com uma vontade enorme de regressar e aconselhamos a todos os que, tal como nós, partilham desta paixão de duas rodas, que um dia participem nesta ou noutra prova do género.

Se é possível fazer turismo numa prova de BTT internacional?  É, e nós somos a prova disso.

A participação de 12 equipas com bikers tugas, demonstra que quem lá esteve em 2011 (1ª edição) passou bem a mensagem. Estou certo de que em 2013 mais equipas Portuguesas aceitarão o desafio. É uma prova de nível mundial, com grandes nomes do BTT, num território fantástico para a modalidade. Está razoavelmente perto e o preço não é exagerado para a qualidade e condições que por lá encontramos.


Deixamos-vos ainda o link com os vídeos, onde poderão ver alguns momentos da semana:

https://vimeo.com/38743019

https://vimeo.com/38887008


Contactos

Clube Banif

Av. José Malhoa, 22
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